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Era uma vez uma livraria chamada Borders

by on Sep.20, 2011, under Americana, ipad

Essa cena já foi vista pelos brasileiros, mas por outros motivos e não de uma forma tão agressiva. Com 40 anos de vida, nesse setembro a cadeia de livrarias norte-americanas Borders fecha as portas. A falência resulta das baixas vendas, consequência forte da venda pela Internet de livros digitais e serviços de entrega em casa.

Um primeiro olhar pode por toda a culpa no tal “ebook”, mas não é bem assim. Vale lembrar que aqui nos EUA existe um hábito de sistemas como o nosso finado Círculo do Livro bem antes desse trem chamado Internet. Quem comprava quadrinhos vai lembrar, por preços muito baratos e com uma compra regular, algumas filipetas ofereciam livros caros por US$5.

O cenário mexeu com a entrada das livrarias online, que deixam o pedido na porta de casa e muitas vezes com imposto diferenciado. Vale lembrar que aqui nos EUA o imposto é por estado, então muitas vezes o preço mais baixo de um item pode também resultar disso. Junte ao molho políticas de free shipping por uma taxa básica anual, como a Amazon faz, sistemas de recomendação de títulos inteligentes e uma entrega que funciona, mesmo com o serviço postal do governo falindo. É normal passar na frente de uma casa aqui e ver pacotes de entrega – o carteiro passou, ninguém atendeu e os pacotes ficam ali, sossegados, sem ninguém mexer. No nosso condomínio, por exemplo, um par de caixas ficou na porta desde ontem até hoje de manhã – e ninguém mexeu.

O processo acelerou com a entrada dos e-readers, tablets e afins, além do Kindle e GoogleBooks também operarem como software. É normal ver por aqui aparelhos como esses em situações comuns, como metrô ou ônibus, carregando uma biblioteca na mão.

Além da compra instantânea, dois fatores jogam forte pelo time do Nook, Kindle e iPad: o menor uso de papel e, muitas vezes esquecido, a economia de espaço. Ainda vivemos no Brasil em lugares relativamente espaçosos, mas uma visita a um prédio novo ou construído nos últimos tempos indica que estamos indo por este caminho. Quanto mais informação for possível ter com menos armazenamento físico, melhor sera o cenário. Basta recordar que alguns prédios nem lavanderia mais oferecem. Não duvido que mais adiante algum arquiteto desenhe móveis com espaço para HDs externos ou bases WiFi.

Crônica de uma morte anunciada? Para alguns sim, mas não foi fácil manter a situação, ainda mais quando a principal concorrente, Barnes and Noble, oferece espaços maiores, presença em campi universitários como livraria acadêmica, aluguel de livros e um e-Reader que tem o seu charme e atenção, o Nook.

Sem falar no sistema de livros usados, que a Amazon triangula muito bem (o que a Estante Virtual faz no Brasil) e pega. Com a variedade de pessoas que lê livros e passa adiante ou busca alternativas mais baratas, acentuado por uma economia em crise, comprar um livro novo já não é mais tão tranquilo.

De um jeito ou de outro, é uma situação de crise econômica + revolução digital que dá um outro sabor amargo para uma cena já vista em outras épocas, como o fim da saudosa Sulina perto das escadarias da Borges de Medeiros ou a transformação da ponderosa Livraria do Globo em uma loja de calçados. E essa transformação não acabou, recém começou.

Sobre o fechamento da Borders, vale ler esta matéria de abril feita pela amiga Larissa Roso para o Washington Post e esta do Wall Street Journal comentando a decisão de “desligar os aparelhos do doente” neste mês.

As fotos são da Borders do Cambridgeside Galleria, em Cambridge, MA, em 13 de setembro, e essa última no centro de Boston nesta terça.

PS)Se ninguém fizer isso, ainda bolo/faço um móvel p. por HDs externos e bases WiFi em cima das portas das casas. Lugar pouco usado e que daria pra explorar.


1 Comment for this entry

  • Rodrigo Leme

    O que mais me chama a atenção no lance da Borders é o “Everything must go”. Não imagino uma megastore fazendo isso aqui.

    ok, as regras são diferentes, a disputa entre canal e fornecedor é mais desigual, muita coisa é consignada e não comprada pelas megastores, mas ainda assim é curioso.

    E claro, o dia que o ebook ameaçar o livro no Brasil, o governo vai criar uma reserva de mercado, aumentando o imposto de quem vende ebook. :)

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